Era um fim de semana de noites quentes, e para acompanhar os jantares de sexta e sábado escolhi, sem medo de errar, vinhos Beaujolais (Bo-jo-lés) servidos em baldes com gelo.

Os Beaujolais são vinhos leves e frutados, fáceis de beber e de harmonizar com as mais variadas refeições, de baixo teor alcoólico (10% a 12%), e que devem ser servidos a temperaturas mais baixas, de 14°C a 15°C, assim como os brancos encorpados.

Produzidos em uma sub-região ao sul da Borgonha e ao norte da cidade de Lyon, na França, são vinhos com denominação de origem controlada (ou AOC – Appellation d’origine contrôlée em francês), o que significa que apenas os vinhos produzidos naquela sub-região podem ser chamados de Beaujolais.

beaujolais

Em 1951 foi criado o Beaujolais do tipo Nouveau, com o objetivo de capitalizar rapidamente os vinhateiros, uma vez que essa bebida era comercializada no mesmo ano da colheita.

Nos idos de 1980 o vinho ganhou alcance e notoriedade em escala mundial, e a região passou a sofrer com “a febre do Beaujolais Nouveau”.

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Por ser leve e muito fácil de beber criou-se uma demanda insaciável de Nouveaux, e os maiores produtores acabaram por elevar em demasia as suas produções, priorizando quantidade em detrimento de qualidade, comprometendo a imagem desse vinho e de toda a região.

Para se ter uma ideia, a produção aumentou de menos de 2 milhões de garrafas no final dos ano 50 para cerca de 90 milhões de garrafas anuais nos anos 90.

Atualmente, importantes produtores franceses estão a investir naquela região, produzindo vinhos de excelente qualidade e buscando a recuperação da boa imagem e da boa fama outrora comprometidas.

Os vinhos Beaujolais são vinhos monovarietais ou varietais (predominância de uma variedade de uva, diferem dos vinhos de corte ou “blends”, explico melhor em outro post depois) e podem ser brancos, feitos 100% da uva Chardonnay, ou rosés e tintos, feitos 100% da uva Gamay.

São elaborados pelo processo de “maceração carbônica”, pelo qual as uvas fermentam em cubas sem desengaçamento e esmagamento, e a pele da uva é estourada naturalmente após a adição de gás carbônico, dando início à fermentação alcoólica. O objetivo desse método de vinificação é exatamente o de obter um vinho bastante fresco e frutado.

Os tintos classificam-se em:

  • Beaujolais Nouveau: leve e frutado. Vinho jovem que fica pronto para o consumo cerca de dois meses após a colheita (que ocorre entre os meses de agosto e setembro de cada ano), e é recebido pelos franceses na terceira quinta-feira do mês de novembro, que comemoram a chegada do primeiro vinho da safra com a frase “Le Beaujolais Nouveaux est arrivée!!!”
  • Beaujolais (básico): leve, frutado e aromático. Representa a maior parte da produção, chegando a 53 hl  (1 hectolitro = 100 litros) por ano. É comercializado durante o ano todo como um vinho das quatro estações. Fácil de harmonizar, adapta-se a diversas culinárias. Deve ser consumido em um ano ou dois a partir do ano da safra / colheita
  • Beaujolais-Village: Floral, frutado e mais encorpado que os anteriores. Anualmente são produzidos em torno de 50 hl de Beaujolais-Village nos 6,000 ha de vinha cultivadas por cerca de 1.250 viticultores. Alguns produtores envelhecem os vinhos em barris de carvalho para deixá-los mais macios, complexos e estruturados.

beaujolais-village

  • Beaujolais Cru: Produzidos nos melhores terroirs ao norte, ostentam no rótulo a apelação específica de sua comuna (Village), sem menção ao nome Beaujolais. Ao beber um AOC Moulin-à-Vin ou Fleurie, se está bebendo um Beaujolais. Na década de 50 o Beaujolais Cru valia o mesmo que os Grand Crus da Borgonha, e que hoje valem cerca de 10 vezes mais. Existem apenas 10 Beaujolais Cru: Saint-Amour, Julienas, Chenas, Moulin-à-Vent (o mais renomado), Fleurie, Chiroubles (tido como o mais elegante), Morgon (o mais encorpado), Regnié, Broully e Côte de Broully. Podem ser conservados mais tempo do que outros Beaujolais (de 5 a 10 anos) e tornar-se melhor com o passar do tempo (mapa abaixo):

Quanto aos brancos e rosés, hoje esses vinhos são raros, sendo grande parte do branco produzido nessa Appellation vendida como “St Véran”.

Aos meus conterrâneos de Cuiabá, sugiro que experimentem um Beaujolais servido quase gelado para acompanhar as refeições mais leves do dia-a-dia.

Espero ter esgotado o assunto, que tenham gostado do conteúdo e que compartilhem e ajudem a divulgar.

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