TABLE WINE é um termo usado no mundo do vinho com dois significados diferentes: o primeiro define um estilo de vinho, e o segundo diz respeito ao nível de classificação do vinho de acordo com a qualidade.

Nos Estados Unidos da América o termo Table Wine designa essencialmente o estilo do vinho, que não é espumante ou frizante e também não é fortificado ou de sobremesa, e que por aqui chamamos de “vinho tranquilo”.

Já na Europa as expressões correlatas (Vin de Table na França; Vino di Tavola ou Vino da Tavola na Itália; Vino de Mesa na Espanha; Vinho de Mesa em Portugal; Tafelwein na na Alemanha, dentro outros) dizem respeito especificamente à classificação do vinho de acordo com a qualidade ou, mais recentemente, com o local de origem e procedência do vinho (vinhos com ou sem indicação de origem).

Por conta da complexidade no sistema de classificação e da grande disponibilidade no mercado brasileiro, falaremos das duas primeiras:

Dos vinhos produzidos na França o VIN DE TABLE é de todos o mais simples, representa cerca de 22% de toda a produção de vinhos no país, e não há regras para a sua produção.

Pode ser produzido com qualquer tipo de uva vinífera, cultivadas em qualquer região, com utilização da quaisquer meios de produção.

A única exigência é que no rótulo frontal das garrafas desse tipo de vinho, não pode haver menção nem do tipo (cepa, casta) da uva, nem da safra, e nem da região em que foi produzido, pois isso afronta as regras e regulamentos de appellation  contrôlée. São os vinhos mais baratos consumidos no dia a dia, para serem tomados despretensiosamente com as refeições, e são facilmente encontrados na maioria dos estabelecimentos comerciais e restaurantes da França.

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Contudo, vale anotar que atendendo a uma tendência (e um apelo) mundial, e a fim de simplificar e unificar a classificação de vinhos na União europeia, o sistema de classificação dos vinhos franceses está em transição desde o ano de 2012, e atualmente os vinhos estão sendo classificados do mais simples para o de melhor qualidade em Vin de France (em substituição ao que antes atendia pela denominação de Vin de Table), Indication Géographique Protégée (IGP), e a mais alta classificação e que designa os vinhos de melhor qualidade, Apellation d’Origine Protégée (AOP).

Para saber mais sobre esse complexo sistema de classificação leia o artigo Entendendo o sistema de classificação dos vinhos franceses.

Nessa mesma linha, o VINO DA TAVOLA é o vinho italiano mais simples, de classificação mais baixa, opondo-se aos vinhos de melhor qualidade, de origem geográfica protegida e controlados:

O típico Vino da Tavola é um vinho de menor custo produzido a partir de várias uvas ou de uma única uva vinífera, que pode ser cultivada em diversas regiões e de várias safras.

Não há regras para a produção do Vino da Tavola, e todas as escolhas ficam a cargo do produtor / vitivinicultor.

Vale a citação de um fato curioso sobre essa classificação: o vinho “Super Toscano” Tenuta San Guido Sassicaia, que está entre os 10 vinhos Bolgheri mais bem cotados; é o terceiro vinho Bolgheri mais caro (uma garrafa não sai por menos de USD 200) e é tido como o vinho mais popular da Itália de acordo com o ranking da neozelandesa WINE SEACHER (link), a exemplo de outros tantos, por muito tempo ostentou em seu rótulo a expressão Vino da Tavola, já que o corte / blend utilizado na produção desse vinho – por opção pura e simples do vitivinicultor – não obedece as regras de origem da região da Toscana, o que sugere uma verdadeira e boa provocação de seus produtores, a desafiar o engessado sistema de classificação vigente.

A Exemplo de outros Super Toscanos caríssimos (eu diria até mesmo inacessíveis para nós, pobres mortais), e que chamamos carinhosamente de “AIAS”:

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Não por menos e seguindo a tendência mundial, a classificação dos vinhos italianos também sofreu alterações a partir de 2011, e o Vino di Tavola vem passando progressivamente a ser chamado simplesmente de “Vino”, ficando mantidas as demais denominações.

Finalmente, o VINHO DE MESA brasileiro se diferencia do Table Wine nos EUA, do Vin de Table francês, do Vin di Tavola italiano etc. por um único e importantíssimo detalhe: o Vinho de Mesa brasileiro engloba tanto os vinhos feitos de uvas viníferas quanto aqueles produzidos de uvas não viníferas ou americanas.

Isso mesmo! Grifei e explico:

Enquanto no resto do mundo, por definição, o vinho é a bebida obtida a partir da fermentação alcoólica do mosto de uvas exclusivamente viníferas, no Brasil o vinho é a bebida obtida a partir da fermentação alcoólica do mosto simples de uva sã, fresca e madura. E ponto.

Para distinguir um tipo de vinho (de uvas viníferas) do outro (de uvas não viníferas), convencionou-se que os primeiros são considerados vinhos finos, feitos de uvas finas, e o rótulo necessariamente conterá a palavra FINO: “vinho tinto seco fino”, “vinho rosado seco fino”, “vinho branco fino seco”.

O rótulo também pode conter a expressão “de mesa” (“vinho tinto fino de mesa” ou “vinho de mesa tinto fino”) porque antes de mais nada o vinho fino também é um vinho de mesa de acordo com a legislação brasileira.

Contudo os vinhos produzidos com uvas não viníferas ou uvas americanas são identificados a partir da AUSÊNCIA da palavra FINO no rótulo, utilizando-se apenas a expressão “DE MESA”: “vinho tinto seco de mesa”, “vinho tinto de mesa suave”, “vinho rosado suave de mesa”, “vinho branco de mesa suave” etc.

Estes são comumente apresentados nas versões seco (se contiver até quatro gramas de glicose por litro) e suave ou doce (se contiver mas de vinte e cinco gramas de glicose por litro).

São os famosos vinhos de garrafões, bem mais rústicos e simples que os vinhos produzidos a partir de uvas viníferas, facilmente encontrados em todo o país, especialmente nas Regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste.

E acreditem, dados recentes confirmam que esse tipo de vinho corresponde a mais de 80% (oitenta por cento) de todo o vinho produzido e consumido no nosso país!

Para mais detalhes leia o artigo O Vinho de Mesa (Suave) brasileiro.

Não vale, portanto, confundir o vinho de mesa (suave) nacional, e que pode ser produzido a partir de uvas não viníferas (uvas americanas ou de mesa), com o vinho de mesa encontrado no restante do mundo, produzido exclusivamente com uvas viníferas.

Complicado, né? Mas acho que se fosse fácil não seria tão interessante…

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