Sem exagero algum, Chablis é o vinho branco mais famoso e mais imitado do mundo, considerado por muitos o melhor vinho branco já produzido de todos os tempos.

“Se a imitação é a forma mais sincera de adulação, os vinhos de Chablis são os mais sinceramente adulados do mundo.”

“Mais recentemente, vinhos rotulados como Chablis têm sido produzidos em vários lugares, como o Estado de Nova York, a Califórnia e o australiano Hunter Valley. A imitação fica no nome, porém, já que esses vinhos só tem em comum o fato de nenhum deles ter gosto que lembre remotamente o dos que são feitos na sonolenta cidade borgonhesa de Chablis ou perto dela.”

(Joseph, Robert. Guia ilustrado Zahar: Vinhos Franceses. Versão em Português, edição de 2008)

O Chablis é um vinho branco seco com caráter metálico feito com 100% da uva Chardonnay, a grande maioria (e os mais típicos) sem passagem por madeira, produzido na famosa e aclamada sub-região de Chablis, localizada ao Norte de Borgonha:

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Fonte: French Wine a Day

Por ser situada tão ao Norte, e a apenas 50km de distância da  região de Champagne, os 3.000ha de vinhas da fria região de Chablis não é de fácil trato, não, ao contrário, a região sofre com constantes geadas, por vezes tão severas que danificam e comprometem todas as plantações.

E os vinhos produzidos em Chablis são tão únicos e diferenciados (apesar de serem tão imitados) porque apresentam um inigualável e inconfundível toque mineral, de sílex (daí serem chamados de vinhos metálicos ou metalizados), típico do terroir da parte mais ao centro da região, formada por solo argilo-calcário onde predomina o calcário chamado “Kimmeridgian”, que remonta do período jurássico.

Esse tipo de calcário “Kimmeridgian” é similar mas não é idêntico com o calcário “Portlandian” que predomina nas terras ao redor, nas áreas mais periféricas.

Assim, de acordo com a área de cultivo temos que quanto mais próximo do centro da região (e da Capital, Chablis), melhor o terroir (formado por calcário “Kimmeridgian”) e melhor o vinho, que vai apresentar o típico caráter metálico. E quanto mais afastado, menos característico e mais simples o terroir (formado por calcário “Portlandian”) e o vinho ali produzido, que pode não ser metálico e pode inclusive ter estagiado em barricas de carvalho.

Delimitada como região de apelação de origem controlada pela primeira vez em 1930, os vinhos produzidos em Chablis foram então classificados em quatro denominações distintas, de acordo com a qualidade, dos mais simples para os mais complexos:

  • Petit Chablis: são quase sempre os vinhos mais simples, produzidos na periferia da região, leves e feitos para serem bebidos jovens.
  • Chablis: são os mais básicos e populares, o Chablis mais típico e característico, e que podem ser excelentes compras considerando a relação custo e benefício. Podem ser envelhecidos por 2 a 5 anos.
  • Chablis Premiere Cru:  os vinhos desta Appellation ostentam no rótulo a denominação Premier Cru com indicação do nome de um dos 40 vinhedos existentes na região e que possuem esta classificação. Contudo, não basta ser um Premier Cru para ser um vinho excelente, de qualidade superior. Deveria, mas não basta, e o nome do produtor acaba fazendo toda a diferença. Podem ser envelhecidos por 4 a 8 anos.
  • Chablis Grand Cru: são os mais complexos e mais caros, considerados os melhores Chablis, e que nunca decepcionam. Apenas sete Maisons ou Clos ostentam essa classificação: Les Clos, Blanchots, Les Preuses, Bougros, Grenouilles, Valmur e Váudesir. Existe ainda o La Moutonne, que não possui a classificação de Grand Cru mas tem o mesmo status, pois fica entre os vinhedos Váudesir e Les Preuses. Apesar de caros, ganham na relação preço e qualidade quando comparados aos grandes vinhos da Côte d´Or, outra nobre sub-região da Borgonha. O estilo dos Chablis Grand Cru é austero por ter acidez marcante, ser muito seco e mineral, complexo e encorpado. Podem ser envelhecidos por 6 a 12 anos.

Apesar de ser um vinho notadamente vivo e que é comumente bebido ainda jovem, os melhores rótulos e safras de Chablis podem e devem ser envelhecidos, sim, e de tão bom que ficam inspiram até poemas como este aqui do renomado Hugh Johnson:

“A fragrância e o sabor que surgem são a quintessência de um caráter evasivo que você pode perder se só tomar um Chablis jovem. Eu só consigo defini-lo como a combinação dos perfumes de maçã e de feno com um sabor de balas caramelizadas e uma nota mineral subjacente que parece ter minado das entranhas da terra. Uma boa safra no momento correto adquire uma riqueza dourada que me faz lembrar um Sauternes.”

(Johnson, Hugh. Enciclopédia do Vinho: vinhos, vinhedos e vinícolas, versão em Português. Editora Senac, São Paulo 2011)

Nos idos dos anos 1980 a moda de envelhecimento dos vinhos em barricas de carvalho novo chegou a Chablis, mas felizmente essa tendência está passando, e as propriedades que continuam a envelhecer seus grand crus em barris novos estão bem mais sensatos, e hoje fazem uso da madeira com bastante moderação, a fim de que seus vinhos não percam a typicité chablisienne.

Mas, felizmente, muitos viticultores simplesmente passaram os anos à margem dessas tendências e continuam vinificando e envelhecendo os seus vinhos em tanques de aço ou de concreto, sem qualquer comprometimento da qualidade.

Em termos de harmonização, o Chablis comum vai muito bem com ostras frescas (e é inclusive carinhosamente chamado de “o vinho da ostras”), mariscos, caranguejo e lagosta.

Foto: Gazeta do Povo

Já os vinhos Chablis Premiere Cru e os Chablis Grand Cru combinam bem com pratos se sabor mais intensos, como salmão defumado, com molhos cremosos, e podem ser inclusive uma boa pedida para acompanhar um foie gras.

Enfim, o Chablis é sem dúvida alguma um dos melhores vinhos brancos do mundo, cujo estilo é copiado mas nunca alcançado.

Se você ainda não provou essa maravilha, Experimente!

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