Vinho branco, rosé, tinto ou laranja?

Vinho laranja? Que novidade é essa? E isso existe mesmo?

Bem, ele existe, sim, mas a grosso modo ele não é um quarto tipo de vinho tranquilo (que não são espumantes e nem são fortificados: brancos, rosés, tintos e vinhos doces).

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Foto: Giz Modo

O vinho laranja nada mais é do que um estilo de vinho branco, feito com uvas brancas, e que tem mais cor, mais sabor e mais corpo porque é vinificado / elaborado pelo mesmo processo de um vinho tinto ou rosé.

Eu explico:

No vinho branco o processo de vinificação resume-se às seguintes etapas:

  • desengace e esmagamento (opcional);
  • prensagem para separação da parte sólida (cascas, engaços, sementes) da parte líquida (mosto ou suco);
  • fermentação alcoólica para conversão dos açúcares em álcool;
  • fermentação malolática para conversão dos ácidos málicos em ácidos láticos (opcional);
  • clarificação (por filtração ou outros métodos) (opcional);
  • retificação (opcional);
  • estágio para envelhecimento em recipientes inertes ou barricas de madeira que podem ser novas ou usadas (opcional); e
  • engarrafamento.

Para a produção deste tipo de vinho a prensagem para separar as cascas do mosto ocorre sempre antes da fermentação, porque a pele das uvas  em contato com o mosto fornece à bebida taninos, mais intensidade de sabores e cor, dando mais corpo ao vinho.

No vinho tinto ou rosé o processo de vinificação já muda um pouquinho:

  • desengace (opcional) e esmagamento (opcional);
  • fermentação alcoólica para conversão dos açúcares em álcool;
  • fermentação malolática para conversão dos ácidos málicos em ácidos láticos (praticamente todos os vinhos tintos fazem fermentação malolática);
  • prensagem para separação da parte sólida (cascas, engaços, sementes) da parte líquida (mosto ou suco);
  • clarificação (por filtragem ou outros métodos) (opcional);
  • estágio para envelhecimento em recipientes inertes ou barricas de madeira que podem ser novas ou usadas (opcional); e
  • engarrafamento para comercialização.

Ao contrário do que ocorre na produção dos vinhos brancos, nos tintos e nos rosés a separação das cascas do mosto (suco) ocorre sempre depois da fermentação, exatamente para possibilitar a extração de taninos, intensidade de sabores e cores.

E nos rosés, é o tempo de contato das cascas de uvas tintas com o mosto que vai dar o tom da cor ao vinho: quanto mais tempo em contato, mais escuro, quanto menos tempo, mais claro.

O infográfico abaixo ilustra bem esses dois processos:

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Imagem: Blog de Isabela Souza Cardoso

Pois bem:

No vinho laranja – e aí é que vem a grande velha novidade – a prensagem, que separa as cascas do mosto, ocorre somente depois da fermentação, tal como ocorre na produção dos tintos e rosés.

Daí o nome de vinho laranja (ou Orange Wine em Inglês), porque o vinho branco vinificado desse modo tem muito mais cor, que varia do dourado ao cobre. Também tem muito mais intensidade de aromas, que vão de frutas cítricas a frutas cristalizadas, tem taninos (sim, este branco tem taninos!), tem mais intensidade e complexidade de sabores, tem mais mais corpo, e chega a ser untuoso na boca.

Todas essas características justifica o grande interesse dos enófilos iniciantes e iniciados mundo afora, porque isso facilita a harmonização do vinho com uma gama muito mais variada de alimentos, inclusive os mais temperados e pesados que não combinam com o vinho branco (além da pura e simples curiosidade, claro!).

A gama de castas brancas utilizadas para elaboração do vinho laranja é ampla, e na sua maioria são uvas autóctones e que não produziriam bons vinhos se utilizadas as técnicas de vinificação de vinhos brancos.

E como era de se esperar, a maior parte do vinho laranja é produzida segundo as regras dos vinhos naturais, como dispensa de produtos químicos nos vinhedos, utilização de leveduras naturais autóctones na fermentação, além do fato de a maioria dos vinhos não ser filtrado, o que resulta em uma bebida turva.

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Foto: Sonoma

E diz-se “velha novidade” porque essa técnica remonta dos primórdios dos tempos, desde o início da vitivinicultura, quando todo vinho era elaborado pelo mesmo processo, independente de serem utilizadas castas brancas ou tintas, e quando não se pretendia produzir ou um vinho branco ou um vinho tinto, mas simplesmente vinho!

Quem recentemente reintroduziu e conseguiu atrair atenção para essa técnica foi o produtor italiano Josko Gravner, nos idos do ano 2000.

De lá pra cá a produção vem aumentando gradualmente na Itália, na região de Friuli; nos países do Cáucaso (onde está situada a Geórgia) e na Eslovênia. Mas os Estados Unidos da Amárica, a Croácia, a Nova Zelândia e até o Brasil têm mostrado potencial para  a produção desse vinho.

E aí, ficou curioso para provar essa velha novidade?

Então prepare os bolsos, porque como a produção desse vinho é diferenciada e ainda é pequena e a demanda (até por conta da curiosidade) é grande, as poucas garrafas de vinhos laranjas que chegam por aqui, chegam a preço de ouro!!!

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